sábado, 16 de julho de 2016

Continuação do conto A garota solitária

... Seis meses após a morte da mãe, Catarina e seu pai tentavam voltar a vida normal. Enquanto ela frequentava a escola para ocupar a mente, seu pai passava o dia todo em casa, chorando pelos cantos agarrado com o retrato da esposa. Como eles eram ricos, ele podia viver sua fase de luto sem preocupações exteriores, mas imerso na sua própria tristeza, ele não percebia o quanto Catarina precisava de ajuda. Ela não falava com ninguém, além do necessário, não permitia a visita dos seus amigos e os afastava, pois não queria que tivessem pena dela.
     O único contato externo que eles tinham eram com os empregados, que tentavam ao máximo fazer com que o patrão reagisse, mas nada o animava. Na última sexta-feira do mês de outubro, a tia de Catarina, irmã do seu pai veio lhes fazer uma visita. Ela se espantou ao ver seu irmão de pijama, jogado no sofá, assistindo aleatoriamente a televisão. Ele nem parecia o grande advogado que era. Assim que o viu, se aproximou e o cutucou, ele apenas olhou para ela e depois voltou os olhos para  a televisão, como se não se importasse por ela está ali. Ela chamou a empregada e perguntou: "A quanto tempo ele ta assim?" "Desde o enterro, senhora Marcela.Ele apenas sai da cama, come qualquer coisa e fica no sofá." Marcela se posicionou em frente a televisão, desligou o aparelho e voltou-se para o irmão: "Já se passaram um mês desde a morte da Carolina, você não pode ficar assim pra sempre. Levante-se." Ele permaneceu deitado olhando para o teto e respondeu a irmã:
     "Quem é você pra me dizer como devo viver? Ninguém te chamou aqui."
     "Viver? Você chama isso de viver? você só fica deitado no sofá, chorando, se lamentando. Você acha que a Carol queria que você ficasse assim?"
    "NÃO ME DIGA O QUE ELA IRIA QUERER! VOCÊ NÃO TEM ESSE DIREITO." Ele esbravejou, pulando do sofá e encarando a irmã.
    "Pelo menos consegui fazer você levantar. Você não é o único que está sofrendo, sua filha precisa de você. Ela está sofrendo também, você não percebe?"
    "Eu sei que ela ta sofrendo, eu também estou. Eu perdi minha esposa, a única mulher que amei, minha companheira."
    "E ela perdeu a mãe, a única que ela tinha ou poderia ter. Você não pode negligenciá-la assim. Celso, você precisa cuidar da sua filha. Catarina está um caos. Eu estive na escola dela e ela não conversa com ninguém, ela ta se isolando. Pelo amor de Deus, se recomponha e cuide da sua única filha."
    "Eu não tenho condições Marcela! Você não está vendo meu estado? Olha pra mim, como posso ajudar Catarina, se eu não consigo me ajudar. Eu amo minha filha, mas não posso ajudá-la agora."
    "Você precisa se recompor Celso! Acorda! Você vai ficar ai nesse sofá a vida inteira, se destruindo e levando sua filha junto?"
    "Não Marcela. na verdade, não quero ficar nesta casa por enquanto. Antes de você chegar me insultando, já havia decidido ficar um tempo em Angra dos réis." Celso se levantou e chamou a governanta, pedindo que ela arrumasse uma mala para ele.
    "Você ta brincando, né? Você vai simplesmente fugir e deixar Catarina aqui sozinha?"
    "Ela não estará sozinha Marcela. Os empregados cuidarão dela."  
Catarina estava parada na soleira da porta e ouviu uma parte da conversa.
    "Há quanto tempo você está ai?" Perguntou a tia levando um susto ao olhar para a menina.
    "Tempo suficiente para ouvir que meu pai continua o mesmo egoísta que só pensa nele."
    "Catarina não é assim. Você sabe que eu não estou em condições de te ajudar. Você ta vendo como eu fiquei depois que... que ela se foi."
    "Vá de uma vez papai! Viaje, aproveite e não se preocupe comigo, eu ficarei bem. Sempre fiquei com você estando aqui ou não."
    "Eu ficarei aqui com ela." Disse Marcela olhando furiosamente para o irmão.
    "Ótimo. Tanto faz. Vou subir. Boa viagem, papai!" A menina disse rispidamente e saiu para o seu quarto."
    Celso não disse nada, apenas seguiu em direção ao seu quarto. Marcela ficou parada um tempo
pensando em toda a situação, respirou fundo e começou a tomar as providências para a sua estadia. Duas horas depois, Celso se despediu secamente da irmã e da filha, entrou no carro e seguiu para o aeroporto. Catarina não saiu do quarto o resto do dia, fazendo suas refeições no quarto, envolta no seu luto.
    No dia seguinte, Marcela tentou falar com a sobrinha mais sem sucesso e essa situação se seguiu por uma semana. Ela não sabia mais o que fazer para alcançar a sobrinha, então ela pegou o telefone e fez a ligação que mudaria a vida de Catarina, mesmo sem saber...


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