sexta-feira, 15 de julho de 2016

Conto: A garota solitária

     Catarina acordou sobressaltada pela manhã com uma batida na porta do seu quarto. Ela precisou de um tempo para se localizar e perceber, que dormira de uniforme e que os acontecimentos do dia anterior eram reais. Tudo que ela lembrava era da última briga que teve com a mãe e não teve a chance de se desculpar. Essa jovem de dezesseis anos, está colocando seu melhor vestido, um tubinho preto de camurça para prestar as últimas homenagens a sua falecida mãe, que morreu no dia anterior, vítima de um acidente de carro. Ela perdeu o controle da direção e se chocou contra um caminhão, morrendo a caminho do hospital. 
     Tudo que Catarina se lembra do dia anterior, é de estar na escola e ser chamada as pressas, na sala da diretoria, na qual o seu pai a esperava, por volta das onze da manhã. Ele lhe deu a notícia de forma. contida, se segurando ao máximo para não desabar. A menina ouviu tudo em silêncio e o abraçou. Eles ficaram assim por uns minutos e então, saíram da sala e foram andando até o estacionamento, entraram no carro e saíram em direção a casa. Durante todo o trajeto, pai e filha permaneceram em silêncio tentando entender o que aconteceu. Catarina chorava baixinho e pensava apenas, que não teve a oportunidade de se despedir da mãe, que não conseguiu dizer que a amava e o quanto precisava dela. 
     Ao chegarem em casa, os vizinhos e amigos próximos, os esperavam na porta para prestarem solidariedade e auxílio com palavras de conforto e abraços demorados. Catarina só queria entrar no seu quarto, deitar na sua cama e tentar entender como aquilo aconteceu com sua mãe.      Seu pai percebendo a sua aflição, dispensou os que estavam presentes educadamente e entrou com a filha. Assim que ele sentou no sofá, desabou. Parecia que ele não chorava há muito tempo. Catarina o confortou e os dois permaneceram juntos por muito tempo.
     Já passava das duas da tarde, quando a campainha tocou e a empregada foi atender, era a irmã da mãe de Catarina que viera o mais rápido que pode. Ela abraçou a tia, ouviu suas lamentações e subiu para o quarto. Mal entrou, ela se jogou na cama chorando, até que adormeceu. Catarina dormiu por dezoito horas, devido ao cansaço de tanto chorar. Ela levantou de um salto com uma batida na porta, era a tia chamando para ela se arrumar para ir ao enterro. A menina tomou um banho, colocou seu tubinho camurça, sandálias pretas e óculos escuros e saiu do quarto, para encarar algumas pessoas que estavam na sua pequena sala. Seu pai foi ao seu encontro, ele parecia ter envelhecido dez anos, em apenas um dia. 
     Era difícil para ela imaginar como ele sobreviveria sem minha mãe, afinal estavam juntos há vinte e cinco anos. Os dois saíram de casa, entraram no carro e foram para a pequena igreja do bairro, onde o corpo estava sendo velado. Eles sentaram no banco da frente, ouviram as palavras de consolo do padre como se aquilo fosse irreal, fosse um pesadelo e a qualquer hora eles acordariam. Infelizmente, eles sabiam que nunca acordariam do pesadelo, eles sabiam que a haviam perdido para sempre. 

     Após trinta minutos, o cortejo seguiu da igreja para o cemitério e as quatro da tarde do dia dez de abril de dois mil e oito, Catarina enterrou sua mãe e viu o seu pai se enterrar junto com ela...


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