domingo, 17 de julho de 2016

Parte final do conto: A garota solitária

... O convidado de Marcela chegou por volta das quatorze horas da segunda-feria. Era um rapaz bonito, no auge dos seus vinte e seis anos, filho da sua melhor amiga, que já estava ciente dos últimos acontecimentos. Ela o recepcionou e lhe explicou todas as suas tentativas frustradas  de tirar Catarina de casa. Contou que a chamou pra sair, fazer compras ou simplesmente conversar, mas a sobrinha dava sempre a mesma resposta antes de se trancar no quarto: "Não estou interessada." 
  "Estava me sentindo sozinha nessa casa imensa." Explicou Marcela para o rapaz.
  "Ainda não entendi bem o que estou fazendo aqui, mas tentarei ajudar sua sobrinha." Respondeu ele polidamente.
   Neste momento, Catarina estava chegando da escola, ela ouviu uma voz diferente na sala e foi ver quem era. Ela notou que tinha um cara bonito conversando com sua tia. Marcela a viu e apresentou os dois. "Catarina, que bom que você chegou. Este é o Logan, filho de minha melhor amiga e veio passar uns dias conosco. Espero que não se importe."
  "Prazer em conhecê-lo. Não me importo. Vou para o meu quarto, almoçarei lá." Respondeu a menina acenando para o rapaz e sumindo de vista em seguida.
  "Perdoe-me pelos modos dela. Desde a tragédia, ela não é mais a mesma. Mal sai do quarto ou fala com alguém." Disse Marcela tristemente.
  "Ela ta péssima, mas não esperava menos. Bom, vamos ver o que posso fazer por ela." 
  "Eu agradeço Logan. Fique a vontade, sinta-se em casa. Você ficará no quarto de hóspedes ao lado do dela, espero que não se importe."
  "De maneira alguma. Assim, terei maiores chances de me aproximar."
Marcela faz um pequeno aceno de cabeça e o levou para um tour pela casa, finalizando com o quarto onde ele ficaria. Seu telefone tocou, ela atendeu prontamente. Depois de alguns minutos, ela se virou para Logan e estava com uma expressão preocupada.
   "Logan, aconteceu um problema em minha casa e terei que me ausentar daqui por uns dias. Você se importa em fazer companhia para Catarina?"
  "Claro que não, afinal eu vim para isso. E pode ficar tranquila que serei bastante respeitoso com ela e tentarei cuidar dela."
   "Disso não tenho dúvidas. Obrigada. Vou falar com ela agora. Até mais."
    Da escada Marcela chamou a governanta e pediu que arrumasse a sua mala e prepara-se o carro. Em seguida, se dirigiu para o quarto de Catarina. Bateu na porta e entrou após ouvir um "Pode entrar" bem baixinho.
    "Catarina, vou precisar ir para casa por uns dias, aconteceu um imprevisto com o seu tio. Sinto muito por te que te deixar."
    "Não se preocupe tia, eu sou grandinha. vou sobreviver. Dê adeus ao Logan por mim"
    "O Logan vai ficar querida, pra te fazer companhia. Volto assim que puder." Antes que a menina pudesse protestar, Marcela saiu do quarto, desceu as escadas e foi em direção ao carro, que já a esperava na porta da entrada e deu as últimas instruções para a governanta, principalmente sobre o rapaz, que ele tinha total liberdade na casa.
    Quando Logan estava saindo do quarto, ele viu a empregada andando no corredor segurando uma bandeja. Ele a abordou e pediu para levar o almoço de Catarina. A empregada achou estranho, mas consentiu no final. Logan bateu na porta e entrou. Catarina estava na cama sentada mexendo no computador. Ela nem levantou os olhos, apenas disse: "Pode deixar a bandeja na mesa. Obrigada Maria." Ele pigarreou ainda segurando a bandeja e então a menina o olhou com cara de espanto.
    "Por que você trouxe meu almoço? Os empregados viajaram com minha tia também?" Ela falou num tom mal-humorado.
   "Não, eu apenas quis saber como era carregar uma bandeja para uma adolescente mal humorada." Respondeu ele colocando a bandeja numa mesinha ao lado da cama. "Pelo que vejo, você só vive nesse quarto, como você aguenta?"
   "Não é da sua conta. Agora você já pode sair do meu quarto."
   "Na verdade, eu me sentarei aqui, esperarei você terminar de almoça e em seguida, te levarei para um passeio."
   "Não estou afim de sair, mas agradeço o convite. Você pode me deixar sozinha, por favor?"
Ele puxou a cadeira para próximo da cama dela e ficou a observando. Como ela percebeu que ele não sairia, então começou a comer. Assim que terminou, ele levantou da cadeira e a chamou para sair.
  "Vamos, levante-se dessa cama e viva. Você precisa de ar fresco."
  "Já disse que não vou sair ainda mais com você que nem conheço direito."
  "Mais um motivo para você ir, para me conhecer. Quero apenas ser seu amigo. Deixe de ser uma adolescente birrenta. Caso contrário, não arredarei o pé daqui"
   "Se eu for com você, promete me deixar em paz depois?"
   "Prometo. Vista algo confortável, te espero em cinco minutos lá em baixo. Se demorar, venho te buscar." Ele pegou a bandeja e saiu do quarto. Catarina ficou um pouco confusa e tentada a trancar a porta do quarto, mas percebeu que não iria adiantar, afinal ele estava hospedado lá. Dar um passeio não tiraria pedaço.
    Ela desceu após alguns minutos e encontrou com ele. Os dois se dirigiram para a porta e um carro já os aguardava. Ele dispensou o motorista e os dois saíram.
  "Pra onde estamos indo?" Perguntou Catarina secamente.
  "Você verá. Quero te mostrar uma coisa. Mas me fale um pouco de você. Tudo que sei é que você tem dezesseis anos, ta no segundo ano, passou por uma tragédia e se isolou do mundo, to errado?"
   "Você já sabe o básico e não me isolei do mundo. Apenas não quero ver ninguém e nem conversar."
   "Tudo bem. Então falarei de mim. Tenho vinte e seis anos, sou arquiteto e trabalho numa construtora, mas estou de férias. Adoro ler, ver filmes, sair e conhecer gente nova." Ela o murmurou um "hum" e
os dois ficaram em silêncio. Dez minutos depois, ele estava estacionando na frente do cemitério.
    "Por que estamos aqui? Não quero entrar nesse lugar. Não preciso que me lembrem que ela está ai" Sua voz saiu embargada.
    Logan saiu do carro deu a volta e parou na porta do carona. "Não estamos aqui para visitar o túmulo da sua mãe. Estamos aqui por outro motivo. Venha, por favor." Ela saiu do carro e o seguiu. Eles andaram pelo túmulos e pararam na frente de um, no qual tinha a foto de uma moça jovem. Ele olhou com ternura para a foto. Os dois ficaram olhando em silêncio, até que ela o quebrou:
    "Quem era ela e como morreu?"
    "Era a minha esposa. Ela morreu há um ano, vítima de uma acidente de carro. Ela foi atropelada por um bêbado que furou o sinal, enquanto atravessa na faixa. Ela tinha vinte e cinco anos. A conheci na faculdade." Ele respondeu calmamente.
   "Sinto muito. Não imaginava que você já fosse viúvo. Podemos ir agora? Não gosto desse lugar."
Ele assentiu e os dois saíram em direção ao carro, entraram e ele resolveu levá-la para o parque. Ela só queria voltar para casa, mas concordou em descer e andarem um pouco. Eles se sentaram na grama e ele puxou conversa.
    "Eu te levei lá pra você ver que não é a única que perdeu alguém. Sei que você perdeu sua mãe, sei da sua dor, mas você precisa continuar vivendo."
    "Como você superou a morte dela? Vocês ficaram muito tempo casados?" Catarina perguntou abraçando os joelhos e olhando para baixo.
    "Nunca superei. Apenas vivo um dia de cada vez. Nos casamos aos dezoito anos, com tudo mundo sendo contra, já que éramos muito novos, mas fizemos dar certo e passamos sete anos felizes. Nunca me arrependi disso. Eu sinto a falta dela todos os dias. Os primeiros dois meses foram os piores, porque eu ainda podia sentir a presença dela e fazia tudo no automático, mas depois eu percebi que ela não ia querer que eu vivesse assim, isolado e infeliz, então voltei a minha vida, voltei a sentir prazer nas coisas, voltei a interagir com as pessoas, voltei a ficar vivo." Pela primeira vez em seis meses, Catarina sentiu vontade de falar com alguém, mesmo que fosse alguém que ela tinha acabado de conhecer.
    "Eu me sinto perdida. Tive uma discussão com ela no dia da sua morte e não pude dizer que a amava, que ela era a melhor mãe do mundo. E depois, tinha meu pai que ficou jogado em casa todo esse tempo, e não conseguia me ajudar, eu não suportava mais o ver daquele jeito. Fiquei feliz quando ele decidiu viajar, mas não sei como voltar a vida normal, você entende? Não sei como me aproximar das pessoas e não quero que sintam pena de mim."
    "Eu te entendo. Deixe-me ajudá-la. Passei pela dor da perda e sei como você se sente. Deixe-me ser seu amigo. Vamos um passo de cada vez. O que você acha?"
    "Eu não sei. Não sei se consigo." Ela respondeu com lágrimas nos olhos.
    "Faremos o seguinte, todos os dias quando você voltar da escola, faremos algo do seu agrado, ok?"
    "Ok"
     Eles ficaram sentando por um tempo e decidiram ir embora. nos dias que se seguiram, Logan ia buscá-la na escola e a levava a restaurantes diferentes, ao cinema, shopping ou simplesmente, eles iam para casa e assistiam a algum filme ou série. Catarina sorria á toa. Marcela ligava todos os dias para saber de notícias e ficava extremamente feliz, quando a governanta dizia que a sobrinha estava mais sorridente ou saindo de casa. Celso também ligava e ficou contente com as novidades sobre a filha. Catarina conseguia conversar sobre tudo com Logan e se sentia mais viva, seu desempenho na escola melhorou e ela voltou a interagir com a melhor amiga. As férias de Logan chegaram ao fim, mas ao invés de voltar ao trabalho ele decidiu ficar com Catarina, por isso pediu demissão. 
     "Como você teve coragem de pedir demissão?" Não quero que você acabe com sua carreira por minha causa."
     "Já tava na hora de eu sair de lá. Não pedi demissão por sua causa, apenas quero abrir minha própria construtora."
    "Por um momento, achei que era por minha causa." Disse ela sorrindo e dando um tapinha no ombro dele.
    "Desculpe te desapontar." Respondeu ele piscando.
     Três meses depois, Logan já tinha aberto sua empresa junto com um amigo e havia comprado um apartamento próximo a casa de Catarina, ele não queria que ela ficasse muito tempo sozinha, pois o pai dela ainda não tinha voltado de Angra e ninguém sabia se ele o faria. Catarina passou de ano e chegou o mês do seu aniversário de dezessete anos. Ela não quis fazer festa, então Logan a levou para jantar no terraço do seu apartamento. Catarina ficou impressionada com a arrumação que ele fez. Eles tiveram um jantar incrível. Após o jantar, eles continuaram sentados no terraço, observando o céu que estava bem estrelado. Logan pegou as mãos dela e olhou fixamente no seus olhos, que brilhavam como as estrelas do céu.
    "Eu tenho um presente para você, espero que você goste." Ele  tirou uma caixa do paletó e estendeu para ela, que o abriu e dentro havia uma pulseira de brilhantes, com pingentes de coração. "Gostou?"
    "Amei!" Ela respondeu boquiaberta e estendeu o braço para ele colocar. Ela admirou a pulseira e o olhou. "Muito obrigada, é linda. Acho que não merecia tanto." Ela o abraçou fortemente e disse no seu ouvido: "Eu te amo, Logan." Ele a observou em silêncio, então ela continuou: "Sei que você é mais velho do que, deve conhecer mulheres mais interessantes e você deve pensar que é só uma paixonite adolescente, mas precisava falar. Por favor, não fique estranho comigo por conta disso, quero que você continue sendo meu amigo." Ele continuou em silêncio. "Por favor, fale alguma coisa." Ele pegou as mãos dela e olhou nos seus olhos:
    "Não penso que seja uma paixonite adolescente o que você sente. Mas não posso ser seu amigo." Ela o olhou assustada e com os olhos cheios de lágrimas.
    "Não, por favor, não deixe de ser meu amigo. Esqueça tudo o que eu disse. Não me abandone." Ela suplicou." Ele passou a mão por seu rosto e disse:
     "Nunca me passou pela cabeça te abandonar. Eu..." Mas ela o interrompeu
     "Não entendo! Você disse que não poderia mais ser meu amigo, me explica?!"
     "Você não me deixou terminar a frase, apressadinha." Ela deu um levo sorriso. "Eu disse que não posso ser mais seu amigo, porque apenas isso não basta para mim. Quero ser seu namorado, quero cuidar de você, se você não se importar de namorar alguém mais velho. Eu amo você, Catarina. Então, já posso te chamar de namorada?" Ela o olhou espantada e feliz ao mesmo tempo, então tascou-lhe um beijo na boca e eles ficaram assim, por um tempo. Quando se afastaram ele perguntou:      "Então, estamos namorando? Serei preso por pedofilia?" Ele perguntou rindo.
     "Com certeza estamos namorando e você não será preso por pedofilia. Estou me sentindo a mulher mais feliz do mundo. Não acredito que estamos juntos. Estou sonhando?"
     "Se for um sonho, não quero acordar. Pode acreditar, estamos muito juntos. Há muito tempo não me sentia tão feliz." Ele deu-lhe um beijo e falou: "Agora vamos, vou deixar minha namorada em casa."
     Ele a deixou em casa e no dia seguinte, Catarina já havia falado para todos que estava namorando. Ligou para seu pai para lhe contar a novidade e para saber como ele estava. Celso ficou radiante com a notícia e lhe informou, que se sentia melhor, mas não queria voltar. ainda não se sentia pronto. Ela entendeu e prometeu visitá-lo em breve. Marcela ficou muito feliz com a noticia e sabia que os dois ficariam bem juntos. 
Logan e Catarina se encontravam todos os dias a noite. Ele sempre ia visitá-la ou os dois saiam para caminhar. Ela passou a visitar o túmulo da mãe e conversar com ela, era a sua maneira de incluí-la na sua vida, sentindo saudade, mas não tristeza.
     Um ano depois, em dois mil e dez, Catarina entrou na universidade, no curso de administração. A empresa de Logan crescia e os dois estavam cada vez mais apaixonados. Marcela a visitava constantemente, mas seu irmão Celso decidiu morar em Angra e passou a direção da empresa para os acionistas, até Catarina se formar e poder assumir. No segundo ano de faculdade, Catarina foi surpreendida por um pedido, no meio da festa de aniversário de trinta anos de Logan.
      "Quero aproveitar a presença de todos e em especial do senhor Celso, para te fazer um pedido Catarina. Estamos juntos há quatro anos e durante todo esse tempo, você esteve ao meu lado me ajudando, me animando e renovando minhas forças, por isso, me ponho de joelhos e humildemente te peço, aceitar ser minha linda e amável esposa?" Ela o olhou espantado com a mão na boca, depois o olhou radiante e estendeu a mão direita dizendo:
     "Não imagino um jeito melhor de viver. Com certeza sim!" Ele colocou a aliança em seu dedo e a beijou gentilmente. Foi um noite mágica. Após todos os convidados irem embora, os dois ficaram sozinhos no apartamento dele. Catarina sentou no colo dele no sofá, olhou fixamente para ele e disse:
     "Agora que estamos sozinhos, posso finalmente te dar o seu presente." Ela o beijou com paixão e ele retribuiu. Então, ele a pegou no colo e a levou para o quarto, a colocando gentilmente na cama. Ele a olhou, passou as mãos pelo seu rosto e perguntou: "Tem certeza que quer fazer isso agora? Eu te amo e entenderei se quiser esperar até o casamento."
     "Eu te amo e quero ser sua esta e todas as noites." Então, ele a tomou nos braços e Catarina se entregou para ele. Ela nunca tinha experimentado tamanha felicidade.

     Catarina se formou dois anos depois e assumiu a empresa do seu pai, que preferiu ficar morando a beira mar, com as lembranças da esposa. Mesmo após seis anos, ele ainda não havia se recuperado totalmente da morte da esposa. Após dois anos de noivado, chegou o dia do casamento de Catarina e Logan. Celso parecia imensamente feliz pela filha e se permitiu viver plenamente aquele dia. Os noivos decidiram se casar na igreja da cidade, a mesma que os pais de Catarina haviam se casado. Ela estava deslumbrante num vestido de renda francesa branco, usando uma tiara e um colar de brilhantes, que pertenceram a sua mãe. Seu pai estava emocionado ao vê-la.
    "Você está linda minha filha. Tenho certeza que sua mãe está muito feliz aonde quer que esteja. Eu te amo muito e desculpe se a abandonei depois da morte dela."
    "Obrigada papai. Tudo bem. Se você não tivesse feito isso, não teria conhecido o Logan e não estaríamos aqui hoje. Eu te amo muito."
Os dois saíram do carro e pararam na porta da igreja, aguardando para entrar.
     "Quero que você seja muito feliz minha filha. Logan é um bom homem e sei que cuidará bem de você, pois ele te ama muito."
     "Eu serei papai. Eu também o amo muito e cuidarei bem dele."
      A marcha nupcial começou a tocar, ela respirou fundo e entrou com o pai na igreja. No altar, Logan a esperava com um enorme sorriso no rosto e lágrimas nos olhos. Celso beijou a testa da filha e a entregou para ele. Os dois se olharam e murmuraram: "Eu te amo", então o padre começou a celebração. Catarina olhou mais uma vez para Logan e percebeu que desde que ele entrou na sua vida, há seis anos atrás, ela estava imensamente feliz e tinha conseguido superar a morte da mãe. que agora, ela tinha alguém que a amava e cuidava dela, alguém que não deixaria mais que ela fosse, uma garota solitária.

FIM


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